Eu compus a melodia da cantiga infantil “Serrador” em 1979 e meu pai (Wilson Fonseca – Maestro Isoca) preparou, naquele ano, um arranjo para Coro a 3 vozes iguais.

Mais uma parceria com o “velho”. Em 2006, elaborei a parte do piano (até então, havia apenas a melodia e o coro “a cappella”).

Vou contar agora o motivo de ter composto essa música, que, aliás, justifica a “coreografia” que sugiro no rodapé da partitura.

Meu pai costumava brincar com filhos, netos e qualquer criança, colocando-a sentada sobre a sua coxa, estando ele também sentado numa cadeira. E, então, papai declamava as seguintes palavras (apenas declamava, sem cantar nenhuma melodia): “serra, serra, serrador; serra a madeira do teu senhor; serra de cima, que eu serro de baixo; shi, shi, shi, shi” (imitando uma serra). Papai pegava a criança, sentada em seu colo (sobre as coxas), balançava-a, segurando o pequenino pelos punhos, de modo que a criança ficasse em movimento, como que “serrando”: vai-e-vem, vai-e-vem, vai-e-vem, vai-e-vem.

Vi meu pai fazer isso com meus irmãos mais jovens, sobrinhos, netos etc. As crianças, já sabidinhas, quando viam o meu pai, logo pediam para ele brincar de “serrador”. Era uma delícia. Meus filhos adoravam essa brincadeira do “vovô Isoca”.

Até que um dia, resolvi fazer uma musiquinha com aquela letra e dediquei ao meu primogênito, Vicente Filho, que, naquela época (agosto de 1979), tinha apenas 8 meses de idade. E papai logo se predispôs a fazer o arranjo para coro a 3 vozes iguais. Mas essa peça nunca foi cantada, até porque as minhas composições ficaram guardadas por muito tempo. Em 2006, resolvi fazer o arranjo incluindo o piano acompanhante.

A “coreografia” sugere: na 1ª vez cantam as mulheres; na 2ª vez cantam os homens; e na 3ª vez cantam homens e mulheres. Na coreografia cada cantor segura as mãos do colega, face à face, em duplas, para imitar a serra: vai-e-vem.

É assim que começa o estímulo da música para as crianças. De modo informal, sem traumas.. Foi assim que nós, filhos de Isoca, aprendemos música com ele.

Meu saudoso pai adorava as crianças.

Falecido em Belém (24.03.2002) e sepultado em Santarém, onde recebeu homenagens do povo, seu esquife foi conduzido pelo Corpo de Bombeiros, em comovente cortejo fúnebre, desde o aeroporto até a Catedral, ao som de suas composições. O evento lembra as homenagens ao Presidente Tancredo Neves e ao piloto Ayrton Senna.

Recordo-me da emoção com que as crianças cantaram, a cappella, o bolero “Um Poema de Amor” (Wilson Fonseca, 1953), precisamente no momento em que o féretro passava bem em frente à Escola de Música “Wilson Fonseca”, em Santarém, ali permanecendo por quase meia hora. Os jovens, todos uniformizados, encontravam-se do lado de fora da escola, na rua, próximos à calçada, e, ali mesmo, começaram a cantar esta música, de modo muito espontâneo (quase de surpresa, sem que ninguém esperasse). E o interessante é que eles não queriam mais terminar de cantar. A música, então, foi cantada umas doze vezes, mais ou menos. As pessoas começaram a perceber que muitas crianças choravam copiosamente durante o canto. As lágrimas dessas crianças a todos comoviam. Foi um dos momentos mais emocionantes de minha vida. Nunca vi coisa igual. O bolero é de autoria de meu pai.

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