Eu estava na sessão do TRT-8ª Região, em sua composição plenária, quando recebi a notícia do falecimento de Vicente Salles, em 7 de março de 2013. Fui tomado de profunda emoção e solicitei que o fato fosse registrado em ata do Tribunal, em sua homenagem, com as comunicações à família e à Academia Brasileira de Música, do qual era membro.

Pesquisador, historiador, folclorista, musicólogo, Vicente Juriambu Salles nasceu em Igarapé-Açu (PA), em 27 de novembro de 1931, e faleceu no Rio de Janeiro, para onde retornou recentemente, depois de residir por muitos anos em Brasília. Era casado com a Profª. Marena (violinista e escritora) e tinha três filhos: Marcelo (violoncelista), Mariana (violinista) e Márcia.

Seu interesse por literatura, música e folclore começou muito cedo, desde quando trabalhou no jornal A Província do Pará. Aos 23 anos, Vicente Salles fez uma peregrinação pelo interior do Pará, a fim de pesquisar a história das bandas de música e o carimbó. Em 1985, publicou o livro Sociedades de Euterpe (As Bandas de Música no Grão-Pará). Brasília: Edição do Autor, onde consta um capítulo sobre Wilson Fonseca, o Barroco no Século XX. Alguns anos antes, esteve em Santarém (PA) e gravou, no coreto da Praça da Matriz, uma retreta da Banda (hoje, Filarmônica) Prof. José Agostinho, sob a regência dos irmãos Wilson e Wilson Fonseca. Ao visitar nossa casa, na Pérola do Tapajós, apreciou o estúdio onde meu pai trabalhava e disse assim: “então é aqui que funciona o seu laboratório de composições, maestro Isoca?”.

Interessante foi como eles se conheceram. Funcionário do Ministério de Educação e Cultura, no Rio de Janeiro, Vicente Salles leu, na década de 50, um artigo escrito por Wilson Fonseca, publicado na Revista Música Sacra, de Petrópolis (RJ), a convite de Frei Pedro Sinzig, Presidente da Comissão Arquidiocesana de Música Sacra, que havia aprovado a Missa Mater Immaculata (1951) do compositor santareno. Entusiasmado com o artigo, Vicente enviou uma carta sem saber do endereço do articulista, diretamente para Santarém. No envelope escreveu apenas: “Sr. Wilson Fonseca – Agência do Banco do Brasil – Santarém – Pará”. A correspondência foi entregue ao destinatário, muito conhecido na cidade. Desde então, eles trocaram inúmeras correspondências e foram muito amigos. Seguramente, Vicente Salles é o mais abalizado biógrafo de Wilson Fonseca, conforme se pode ver nos seus livros Música e Músicos do Pará (1970, 2002 e 2007) e Santarém: Uma Oferenda Musical (1981) – referência à notável obra de J. S. Bach (1685-1750), além de diversos artigos, tais como Notícia de Wilson Fonseca (Amazônia, 1958), Louvores para o Maestro Isoca com alvitre no final (A Província do Pará, 22.11.1980) e outros publicados no Jornal de Brasília, Caderno Cultura, edição de 21.8.1982; no jornal O Liberal, em 17.11.2007 etc.

Em 2004, no Acervo Vicente Salles, no Museu da UFPa, encontrei preciosidades, como o schottisch Idílio do Infinito (1906), primeira composição de José Agostinho da Fonseca, meu avô, com transcrição para piano (1986), escrita por Wilson Fonseca (letra: Emir Bemerguy), e várias composições de membros da família Fonseca, inclusive de minha autoria.

Em 1978, recebi uma carta de Vicente Salles da qual transcrevo os seguintes trechos:

“Recebi, há pouco, um exemplar do seu Hino ao Centenário do ‘Teatro da Paz’, bonita música para os bonitos versos do poeta Emir Bemerguy. Quero dar-lhe meus parabéns. Achei bastante curiosa e de bom efeito, a direção da linha melódica, em movimentos ondulados, ascendentes e descendentes, e a oportuna escala ascendente, que dá uma grande força ao segundo verso de cada estrofe, projetando a tônica verbal no salto, ainda ascendente, de terceira. Parece-me bastante vigorosa a melodia, que se caracteriza, principalmente nas estrofes, pela quase total ausência de notas rebatidas. Talvez isto demonstre um certo arrebatamento próprio de sua idade; mas, por outro lado, os versos de Emir Bemerguy são convidativos. Veja só o sentido das palavras, que você bem articulou musicalmente: ‘Começando jornada triunfal!’… ‘Expoentes das artes no mundo!’ Seria bem difícil obter outra solução.

Claro que não sou a pessoa indicada para fazer uma análise rigorosa do seu texto e sei perfeitamente que você possui a escola do Mestre Izoca, herdeiro de uma cultura musical respeitável, que tanto admiro e que vejo projetada agora em você. Nos velhos tempos tentei fazer poesia que se adaptasse a melodias. E é desse tempo que guardo alguma experiência.

Portanto, vejo com muita simpatia o seu trabalho e alegra-me enriquecer meu arquivo com um exemplar de trabalho seu, pouco depois de receber também o álbum de Mestre Izoca. A dinastia dos Fonseca, de Santarém, é sem dúvida um respeitável patrimônio de nossa terra.

Quando tiver oportunidade de ir a Belém – e talvez o faça em fevereiro próximo – quero agradecê-lo pessoalmente a gentileza, e conhecê-lo pessoalmente!”.

Ele me chamava de “meu xará”. No meu livro A Vida e a Obra de Wilson Fonseca (Maestro Isoca), lançado em 2012, fiz várias referências ao grande mestre. Foi por sua sugestão e incentivo que escrevi o artigo Tributo ao Maestro Wilson Fonseca, publicado na conceituada Revista Brasiliana nº 11, da Academia Brasileira de Música (Rio de Janeiro, maio/2002).

Em 19 de janeiro de 2013, eu recebia mensagem de outro ilustre membro da ABM:

“Fiz uma boa leitura do seu belíssimo livro de homenagem a seu ilustre Pai. Apreciei sobretudo o capítulo ‘Missão da vida’ e a notável documentação que conseguiu reunir, inclusive fotográfica, sobre o maestro Isoca. Feliz o compositor cujo filho tão dedicado conseguiu reunir tão notável documentação, material informativo e biográfico, e o fez publicar de maneira tão eficaz. Em conversa com seu conterrâneo e meu amigo Vicente Salles, estivemos recentemente conversando na Academia Brasileira de Música e comentado a alta qualidade do seu trabalho de divulgação. Em uma possível 9ª edição da minha ‘Historia da Musica no Brasil’, espero ter o prazer de registrar a obra de seu Pai com o merecido destaque. Aceite um cordial abraço de parabéns do Vasco Mariz”.

Ainda em janeiro de 2013, ao responder mensagem que lhe remeti com o artigo Vicente Fonseca e a história da música, de Fernando Jares Martins (03.01.2013), postado no blog Pelas Ruas de Belém, alusivo à minha posse no Instituto Histórico e Geográfico do Pará, recebi de Vicente Sales o seguinte e-mail:

“Grato pela remessa de mais um produto da sua invejável produção. Com o nosso abraço de Ano Novo vai uma lembrança musical da Belém antiga, trabalho de meu filho Marcelo. Abra o link abaixo e curta! Abraços de Marena e Vicente”.

O link é uma gravação no Youtube da peça Reminiscência a uma velha mangueira, de seu sogro Marcos Salles, com revisão da Marena, sua esposa, e execução de Marcelo Salles, seu filho e autor da transcrição para violoncelo solo.

Em sua homenagem compus, na mesma data de seu falecimento, a música Elegia a Vicente Salles (Trio para Violino, Violoncelo e Piano), que pode ser ouvida abaixo:

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