Assim como o compositor paulista Francisco Mignone tem as suas “Valsas de Esquina” e o músico amazonense Arnaldo Rebelo, as suas “Valsas Amazônicas”, eu venho compondo uma série de “VALSAS SANTARENAS”, desde a década de 70 do século passado. Atualmente, a coletânea abrange 55 peças (Nota de atualização: hoje, são 95 peças).

Certa vez, quando esteve em Belém, por volta de 1985, a Profª Rachel Peluso, compositora paraense, que vivia em São Paulo, recentemente falecida, solicitou-me, para exame, algumas dessas “Valsas Santarenas” (1 a 24).

Pouco tempo depois, ela enviou-me uma carta, com a devolução das partituras das valsas. Nessa oportunidade, a saudosa musicista santarena fez não apenas uma abalizada análise daquelas minhas composições, como também sugeriu diversos “subtítulos” para cada música.

Rachel Peluso recomendou que a série daquelas 24 Valsas Santarenas fosse reunida sob o título de “Coleção Santarena”. Ela revelou-me que os subtítulos foram inspirados após ela própria tocar, ao piano, cada uma dessas “Valsas Santarenas”, quando pôde melhor sentir o espírito e o clima de cada composição.

É oportuno confessar que guardo com muito carinho esse “tesouro”, que considero uma verdadeira “relíquia”, porque se trata de material escrito do próprio punho, pela querida e saudosa amiga, compositora e conterrânea, sobre os manuscritos de minhas composições.

Ela ainda sugeriu a colocação de alguns pedais e outros sinais de dinâmica para as peças, haja vista o seu propósito e dedicação no sentido de aperfeiçoar as composições de seu ex-aluno.

Eis a relação das citadas composições de minha autoria, anotadas pela Profª Rachel e com os subtítulos por ela sugeridos:

Valsa Santarena nº 1 – “Praia dos Namorados”;

Valsa Santarena nº 2 – “Revoada das Garças”;

Valsa Santarena nº 3 – “Rio Tapajós dos Meus Sonhos”;

Valsa Santarena nº 4 – “Saudosa Vera-Paz”;

Valsa Santarena nº 5 – “Eterno Bailado dos Rios, Tapajós e Amazonas”;

Valsa Santarena nº 6 – “Formosa Tapúia”;

Valsa Santarena nº 7 – “Vitória-Régia”;

Valsa Santarena nº 8 – “Seresta do Caboclo”;

Valsa Santarena nº 9 – “Gorjeio do Jurutaí”;

Valsa Santarena nº 10 – “Ilha Encantada”;

Valsa Santarena nº 11 – “Sinfonia das Matas Selvagens”;

Valsa Santarena nº 12 – “Noite de Luar”;

Valsa Santarena nº 13 – “Coração Saudoso”;

Valsa Santarena nº 14 – “Céu de Estrelas”;

Valsa Santarena nº 15 – “Encontro das Águas”;

Valsa Santarena nº 16 – “Meu Violão”;

Valsa Santarena nº 17 – “Flores Silvestres”;

Valsa Santarena nº 18 – “Em Cada Coração, Saudade de Santarém”;

Valsa Santarena nº 19 – “O Canto da Mocoronga”;

Valsa Santarena nº 20 – “Alvorada da Floresta Amazônia”;

Valsa Santarena nº 21 – “Belém, Expressão das Artes”;

Valsa Santarena nº 22 – “Serenata ao Luar”;

Valsa Santarena nº 23 – “Melodia do Amor”; e

Valsa Santarena nº 24 – “Sol Poente”.

Além disso, para a “Valsa dos Setenta Anos”, que dediquei ao meu pai, em 1982, ela sugeriu que se iniciasse outra Coletânea, com o título de “Amor e Arte”, e idealizou o subtítulo de “Valsa Romântica nº 1″. E, ainda, para outra valsa que dediquei à minha filha caçula (“Lorena”), ela sugeriu a criação de outra Coletânea, com o subtítulo de “Canção de Ninar”.

Vale a pena transcrever alguns trechos da carta da Profª Rachel Peluso, datada de 12.12.1985:

“Somente hoje, terminei de tocar tuas lindas composições, pois me destes a confiança de olhar, e, foi o que fiz, com carinho e admiração. São lindas, ricas em melodias, feitas com amor e muito gosto artístico. Herdastes a veia fabulosa do Mestre artista, do saudoso teu avô, José Agostinho da Fonseca, e, do artista completo, de alma nobre que é teu pai, compositor e Maestro, Wilson Fonseca. Continue nesse trabalho maravilhoso, nessa criatividade romântica. Que Deus e Santa Cecília te iluminem, nessa beleza de tua arte, aliás, sito-me orgulhosa e feliz, porque, também fostes meu aluno de piano e conheço bem teu valor artístico. Fiquei orgulhosa, sabendo de tua brilhante carreira como advogado, jurista (obs.: como magistrado, juiz). Que as Virgens de Nazareth e Conceição, derramem benção em tua alma nobre, inteligência e cultura.

Tomei conhecimento do que pediste sobre as músicas: alguma coisa mudei, coloquei pedal e colorido, que aliás, terias feito o mesmo. Somente tomei a liberdade de colocar os nomes às mesmas, e, a sugestão de fazer a coleção em dois álbuns, de 12 e 12 peças, e quando preparar para o impresso, não esquecer de dar uma pequena distância, para que fiquem nítidas, fácil para leitura. Mais uma vez, parabéns e aplausos, pelas românticas e nostálgicas valsas.

Conte-me as novidades de Belém e Santarém, pois estou saudosa. O carinho de meus conterrâneos me faz criar vida nova”.

Eu agradeci por carta enviada à Profª Rachel, cuja cópia também tenho guardado.

Enfim, eu continuei compondo, dentre outras peças, a série de “Valsas Santarenas”, pois também recebi muito incentivo e preciosos ensinamentos de meu saudoso pai (Wilson Fonseca – Maestro Isoca).

Quando papai faleceu, eu havia chegado a 50 “Valsas Santarenas”. E revelei a ele que já era hora de encerrar essa série. Ele me disse: não pára; continua, sempre que houver inspiração.

E a “Valsa Santarena nº 51″ eu fiz no próprio hospital, onde papai foi internado, em decorrência de uma queda que sofreu, com 89 anos de idade, em março 2002. Cerca de 10 dias depois ele faleceu, em Belém, onde estava na ocasião, pois havia sido homenageado com o recital “Encontro com Maestro Isoca”, em janeiro daquele ano. O recital foi gravado, ao vivo, e deu origem ao CD com o mesmo nome do recital.

Eu senti, quando compunha aquela “Valsa Santarena nº 51″, que estava fazendo uma espécie de “réquiem” para meu próprio pai. Parece premonição. Não sei como tive forças para tocar essa música, na Missa de Corpo Presente, em Santarém. O sepultamento dele lembra das homenagens póstumas para o Presidente Tancredo Neves e o piloto Ayrton Senna: uma apoteose, em Santarém. Ele era muito querido por todas as classes sociais.

Bem. Foi em Santarém que resolvi dar um subtítulo à “Valsa Santarena nº 51″. O subtítulo é “Lira Iluminada”.

Papai compôs, em 1941, a valsa “Lira Adormecida”, para seu pai (meu avô, José Agostinho da Fonseca), quando o velho ZéAgostinho caiu doente e não pôde mais fazer o que mais gostava: compor.

Quando meu avô morreu, papai compôs a “Lira Partida” (1945).

Em exatos 6 meses antes de papai falecer, eu havia composto a “Valsa Santarena nº 48″, com o subtítulo de “Lira Renovada”, pois papai havia se recuperado de uma problema de saúde, em Santarém.

Ele chegou a ver as minhas Valsas Santarenas de nºs. 49 e 50. E gostou.

Quando papai foi sepultado, havia um luar muito bonito, em Santarém.

Tudo isso me levou a subintitular a “Valsa Santarena nº 51″ de “Lira Iluminada” (cuja partitura deixei em seu jazigo). Em abril de 2002 fiz a letra. Depois fiz vários arranjos para esta composição, sobretudo para conjuntos camerísticos.

E continuo compondo essa série de “Valsas Santarenas”, graças aos incentivos de papai e da Profª Rachel Peluso, dois grandes mestres da Arte de Euterpe. A maioria é feita para piano solo, mas há alguns arranjos e transcrições para conjuntos de câmara. Há pouco compus um Duo de Fagote e Piano, para a Valsa de nº 42.

A mais recente da série é a “Valsa Santarena nº 55″.

Trata-se de uma peça para flautas doces, flautas transversais, saxofones-alto, trompetes, tuba, violinos, violoncelo, piano, coro (4 vozes mistas) e percussão (caixa, pratos e bombo). Aliás, na percussão contei com a colaboração de Vicente Fonseca Filho, meu primogênito, que estréia como meu parceiro musical, na tradição da família. Também fiz uma letra para essa composição. É uma música bem simples, que lembra Santarém de minha infância. Foi composta especialmente para a Orquestra, a Camerata de Flauta Doce e o Coral da Casa de Cultura Santo Amaro, de São Paulo (onde funciona a “Sala Rachel Peluso”), dirigida pela Profª Sílvia Luisada, de quem recebi uma carinhosa mensagem com estes dizeres: “Acabei de ouvir a Valsa Santarena e achamos muito bonita, saudosa, lembra praça com coreto e realejo de fundo, melodiosa, harmoniosa… muito diferente, gostei!”.

Meu sonho é um dia gravar a série completa das “Valsas Santarenas”. Quem se habilita para interpretá-las?

Por enquanto, fiquemos com a letra da “Valsa Santarena nº 55”, cujo subtítulo bem que poderia ser “Uma cidade… Um coreto… Um realejo…”:

VALSA SANTARENA Nº 55

Música e letra: Vicente José Malheiros da Fonseca

Belém (PA), 25 e 30 de abril de 2005

I

Eu vou cantar, cantar

Nesta valsinha o amor

Quanta emoção

Que desperta a canção

Só quero cantar para ti

Neste compasso eu vou

Como se fosse meu

Mas na verdade

Este canto que fiz

É teu, meu grande amor

II

Vem agora

Vem depressa

Vem sem medo

Dançar pelo salão

Nossa valsa tão bonita

Que me lembra Santarém

Nossa terra tão querida

São lembranças que guardei

Juntinho ao coração

(Juntinho ao coração)

III

Ah! Santarém

Oh! Tapajós

Tens a beleza natural

Que o poeta cantou

Minha terra natal

Santarém, esta valsinha, é para ti

Mas quero te dizer

Que fiz com muito amor

Quem dera um dia voltar

Ao teu regaço de esplendor

IV

Eu vi, meu Tapajós,

Que luar tão lindo

Mirando Alter-do-Chão

Um paraíso pleno de belezas, quanta imensidão,

Águas tão puras, belas, cristalinas,

Mar de inspiração

Meu rio azul

Vou mergulhar pra sempre

Esta canção

Cantando assim

Nas águas da emoção

Oh! Minha Santarém

Como te quero bem

Me deixa eu te dizer

Não custa repetir

Tu tens o pôr-do-sol

Mais lindo de morrer

Na foz do Tapajós

Oh! Linda Santarém!

(Repete I e II)

Categorias: Blog